Em artigo, presidenta da Fenaj alerta que a desinformação e o avanço da inteligência artificial em ano eleitoral tornam o jornalismo profissional ainda mais essencial para a democracia. Neste dia 26/8 jornalistas estão mobilizados no Dia D pelo Diploma.

Em um ano eleitoral marcado pela hiperconexão, pela circulação acelerada de conteúdos enganosos e pelo avanço da inteligência artificial, defender o jornalismo profissional é defender a própria democracia. Nunca foi tão fácil produzir e compartilhar informações — e, ao mesmo tempo, nunca foi tão necessário distinguir fatos de manipulações, opiniões de evidências e informação de propaganda. Nesse cenário, o jornalismo tem uma responsabilidade que não pode ser substituída por algoritmos, influenciadores ou conteúdos produzidos automaticamente.

O jornalismo profissional exerce uma função social essencial: investigar, apurar, contextualizar e oferecer à sociedade informações que permitam o conhecimento imediato da realidade, gerando cidadania, ou seja, a formação autônoma de opiniões e decisões. Democracias dependem de cidadãos capazes de conhecer a realidade em que vivem, acompanhar as ações de governos e instituições e cobrar responsabilidades. Sem informação confiável, o debate público se fragiliza e abre espaço para a manipulação, a intolerância e a erosão da confiança nas instituições.

A inteligência artificial amplia possibilidades para o trabalho jornalístico, mas também cria novos desafios. Conteúdos sintéticos podem simular pessoas, acontecimentos e declarações com enorme grau de realismo, tornando ainda mais difícil para o público identificar o que é verdadeiro. Por isso, o uso de IA no jornalismo deve estar acompanhado de transparência, supervisão humana, responsabilidade editorial e respeito aos princípios éticos da profissão. A tecnologia pode ser uma ferramenta, mas não pode substituir a apuração nem transferir para máquinas a responsabilidade sobre aquilo que é publicado.

Essa responsabilidade também alcança as empresas jornalísticas. Em vez de priorizar apenas velocidade, audiência e engajamento, é necessário garantir condições para que jornalistas possam trabalhar com tempo, estrutura e independência. Investir em equipes, formação, checagem e mecanismos transparentes de correção não é um custo dispensável: é parte da responsabilidade social de quem produz informação para o público. Jornalismo de qualidade exige profissionais valorizados e condições dignas de trabalho.

Ao mesmo tempo, combater a desinformação não pode servir de justificativa para censura ou para ataques à liberdade de imprensa. A resposta democrática deve fortalecer o jornalismo, ampliar a transparência das plataformas e responsabilizar aqueles que deliberadamente produzem e disseminam conteúdos fraudulentos, sempre preservando a liberdade de expressão, o pluralismo e a autonomia editorial. A sociedade precisa de mais informação qualificada, e não de menos vozes.

A sustentabilidade do jornalismo também precisa estar no centro desse debate. A concentração do mercado de comunicação, a precarização do trabalho e a transferência crescente das receitas publicitárias para grandes plataformas digitais ameaçam a capacidade de veículos manterem estruturas profissionais de apuração. Defender o jornalismo profissional significa, portanto, discutir também políticas que assegurem condições econômicas para que o direito à informação seja efetivamente garantido.

Para a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), a democracia não se sustenta apenas pelo direito de votar, mas também pelo direito de conhecer, questionar e compreender a realidade. Em tempos de desinformação e inteligência artificial, o jornalismo profissional continua sendo uma das principais ferramentas da sociedade para distinguir fatos de falsidades e poder de responsabilidade. Fortalecê-lo é fortalecer a cidadania, a liberdade e a própria democracia.

Samira de Castro Cunha

Presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas