Falar sobre a história de Vila Velha é, muitas vezes, iniciar a narrativa em 23 de maio de 1535, data marcada pela chegada de Vasco Fernandes Coutinho à região da atual Prainha. Foi nesse local que os portugueses estabeleceram o primeiro núcleo de povoamento colonial da Capitania do Espírito Santo. Entretanto, essa narrativa precisa ser ampliada. Antes da chegada das caravelas, das sesmarias e das construções coloniais, o território que hoje constitui Vila Velha já era ocupado, conhecido, utilizado e significado por diferentes povos indígenas. Portanto, a história de Vila Velha não começa com a colonização portuguesa. Ela começa muito antes dela, com os povos originários que constituíam sociedades, estabeleciam relações com o território, produziam conhecimentos e construíam modos próprios de viver.
A própria denominação da Prainha como local de chegada dos portugueses não deve apagar sua história anterior. A região era conhecida pelos povos indígenas e fazia parte de uma paisagem social e cultural muito mais ampla.
Fontes históricas indicam a presença e a disputa territorial de diferentes grupos indígenas na região no período da chegada dos portugueses, entre eles Tupinikim, Goitacá, Puri e Tupinaé.
O território não era uma terra vazia à espera de ocupação. A chegada portuguesa representou, na realidade, o encontro — marcado por conflitos e relações assimétricas de poder — entre diferentes sociedades. O desembarque de Vasco Fernandes Coutinho, em 1535, inaugurou a ocupação colonial portuguesa, mas não inaugurou a história humana daquele território. A documentação sobre os primeiros anos da colonização registra justamente a resistência dos povos indígenas diante da tentativa portuguesa de ocupar suas terras.
A resistência indígena é uma dimensão essencial da história de Vila Velha. Durante muito tempo, narrativas tradicionais apresentaram os indígenas apenas como obstáculos à colonização, frequentemente descritos por expressões como “índios hostis” ou “ataques indígenas”. É necessário, contudo, inverter essa perspectiva. Aquilo que os registros coloniais classificaram como “ataques” também pode ser compreendido como parte da defesa de territórios, comunidades, formas de vida e sistemas de existência ameaçados pela expansão colonial.
Quando os portugueses chegaram, não estavam simplesmente ocupando uma área desabitada. A distribuição de sesmarias, a instalação de engenhos, a construção de fortificações e a criação de núcleos coloniais significavam a apropriação de territórios anteriormente utilizados e ocupados por povos indígenas. Nesse sentido, a resistência indígena não representa um episódio secundário da história local. Ela demonstra que os povos originários foram sujeitos históricos que tomaram decisões, organizaram estratégias, estabeleceram alianças e defenderam seus territórios. A presença indígena, portanto, não se limita ao período anterior à chegada dos portugueses: ela atravessa toda a formação histórica do Espírito Santo.
A própria expansão colonial do Espírito Santo esteve profundamente relacionada à presença indígena. Estudos históricos mostram que as aldeias missionárias passaram a desempenhar papel importante no processo de ocupação territorial da capitania e que indígenas foram deslocados para esses espaços por meio de expedições realizadas no interior. Isso revela uma contradição importante: ao mesmo tempo em que os colonizadores buscavam controlar os povos indígenas, dependiam de seus conhecimentos, de seu trabalho e de suas relações com o território.
Reconhecer essa história não significa negar a importância da colonização na formação de Vila Velha. Significa compreender que ela é apenas uma das camadas da história local. Antes da chegada dos portugueses havia história. Durante a colonização houve história. E depois dela os povos indígenas continuaram fazendo história. É preciso reconhecer que o território hoje chamado Vila Velha não nasceu em 1535: ele já era vivido, conhecido, nomeado e significado por diferentes povos.
Olhar para essa história é também uma forma de construir uma cidade que conhece melhor suas próprias origens. Uma Vila Velha que reconhece os povos indígenas não apenas como personagens do passado, mas como sujeitos históricos do presente, consegue compreender de maneira mais profunda sua identidade, seu território e sua própria formação.
A história de Vila Velha, portanto, não começa com a chegada dos portugueses. Ela começa muito antes — e os povos indígenas estão no centro dessa história.
* Aline de Alcantara Valentini (Aline Jaxuca), referência em História Indígena, membro fundadora da Academia Capixaba de Letras da Diversidade (Acaled).




