Por Fábio Perere*
Meu avô costumava dizer que a terra conversa. Não com palavras, naturalmente, porque terra não tem boca. Mas geme. Estala. Seca. Encharca. Derruba barrancos, levanta poeira, faz rios transbordarem e árvores perderem suas folhas. “Quem souber escutar entende o recado”, dizia ele. Eu era menino e achava graça, pois acreditava que toda conversa precisava de voz.
Naqueles tempos, o céu da Serra parecia maior. À noite, quando as casas aquietavam e o último lampião se apagava, as estrelas se espalhavam pelo escuro, o vento descia dos morros e o mato se movimentava devagar. Meu avô se sentava à porta e começava suas histórias. Apontava para o céu e perguntava: “Você acha que tudo isso foi feito sem ordem?” Eu não sabia responder. Então ele dizia que Deus havia preparado o mundo como quem prepara uma casa para receber os filhos: primeiro a luz, depois as águas e a terra; vieram as plantas, os animais, os rios, o céu e toda sorte de vida. Por último chegou o homem. “E foi aí que começou a complicação.” Eu ria e perguntava por quê. Ele respondia: “Porque bicho nenhum quer ser dono do mundo.”
Para meu avô, o homem recebera a terra para viver nela, e não para possuí-la. Mas logo quis cerca, escritura, ouro e mando. Quis mais terra do que seus pés poderiam pisar e mais comida do que sua barriga conseguiria receber. Derrubou árvores, secou nascentes, caçou por prazer e jogou fora aquilo que poderia repartir. Depois, quando a natureza respondeu, chamou aquilo de castigo. “Não é castigo”, dizia o velho. “É resposta.” Quando eu perguntava de quem, ele apontava para o chão: “Dela.” A terra, para ele, era mãe. Não porque fosse sempre delicada, mas porque sustentava. Dava água, alimento e abrigo; recebia a semente, guardava os mortos e fazia nascer novamente aquilo que parecia acabado. Certa vez, durante uma estiagem comprida, o rio ficou magro, o gado procurava sombra e as folhas das bananeiras pendiam como braços cansados. Meu avô caminhou até uma nascente quase seca, ficou em silêncio por algum tempo e murmurou: “Está gemendo.” Naquele dia eu já estava crescido e não ri.
Havia mesmo alguma coisa naquela paisagem, uma espécie de cansaço, como se a terra estivesse dizendo baixinho: “Vocês pediram demais.”
Meu avô era homem de fé, mas não gostava de quem usava religião para mandar nos outros. Dizia que fé sem cuidado não servia para muita coisa. “Tem homem que passa o domingo inteiro falando de Deus e, na segunda-feira, joga lixo no rio. Deve pensar que Deus mora só dentro da igreja.” Conhecia as Escrituras e gostava particularmente da passagem que dizia que toda a criação geme como em dores de parto. “Veja se não é isso”, dizia. “A criação inteira esperando o homem criar juízo.” Eu imaginava então o mundo como uma enorme mulher cansada: os rios seriam suas veias, as florestas seus cabelos, as montanhas seus ossos, e nós caminharíamos sobre seu corpo sem perceber. Os anos passaram e a Serra também mudou. Chegaram casas, comércios, estradas, carros, antenas e máquinas. Onde havia mato apareceu muro; onde corria água apareceu cimento. O povo chamava aquilo de progresso. Meu avô perguntava: “Indo para onde?” Ele não era contra a novidade. Gostava de rádio, achava bonito avião e admirava médicos, professores e gente de estudo. Só não acreditava em progresso que ensinasse o homem a chegar às estrelas, mas não o ensinasse a cuidar do chão onde vivia.
Ele achava estranho que o homem pudesse falar com alguém do outro lado do mundo e não cumprimentasse o vizinho; que inventasse remédios capazes de salvar vidas e armas capazes de destruí-las; que levantasse prédios enormes enquanto outros dormiam nas ruas. “Tem alguma conta errada nisso”, murmurava. Também desconfiava dos políticos e dos religiosos que falavam alto demais. “Quem sabe muito não precisa berrar tanto.” Para ele, havia gente demais querendo provar que tinha razão e gente de menos disposta a escutar. Político queria poder, pregador queria seguidor, rico queria mais riqueza e pobre queria apenas sobreviver. Enquanto todos disputavam seus lugares, a terra permanecia debaixo de seus pés sustentando cada um deles, sem partido, sem igreja e sem palanque. Uma tarde, depois de uma chuva forte, encontramos um barranco inteiro caído sobre a estrada.
Perguntei se a terra estava brava. Meu avô balançou a cabeça e apontou para o alto do morro, onde quase não havia mais árvores. “Tiraram o que segurava ela.” A terra não precisava se vingar. Bastava obedecer às suas próprias leis. Sem árvore, o solo cedia. Sem mata, a água corria. Sem cuidado, chegava a consequência. “Deus fez lei até para o barro”, disse ele. “O homem é que pensa que pode viver sem lei nenhuma.”
Com o passar dos anos, compreendi que aquela era uma das maiores lições que meu avô tentava me ensinar. Tudo parecia conhecer sua medida. O rio procurava o lugar mais baixo, a raiz buscava água, o pássaro reconhecia a estação de partir, a lua seguia seu caminho e as estrelas apareciam em suas horas. Talvez o homem fosse a única criatura que, conhecendo tantos caminhos, insistisse em se perder. Meu avô morreu numa madrugada tranquila. Não houve trovão, aviso ou sinal extraordinário. Apenas silêncio. Enterraram-no numa manhã clara e, enquanto a terra caía sobre seu caixão, lembrei-me de todas as vezes em que ele dissera que a terra recebia os mortos e devolvia vida. Naquele instante percebi que também nós retornamos àquilo que passamos a vida inteira pisando. Depois disso, muitos anos correram. O mundo ficou ainda mais rápido. As telas chegaram a todos os lugares, as notícias começaram a atravessar oceanos em segundos e passamos a saber o que acontece a milhares de quilômetros sem sequer conhecer o nome da árvore diante de nossa casa. Falamos de outros planetas, imaginamos cidades fora da Terra e sonhamos alcançar mundos distantes, enquanto este pequeno mundo que sustenta nossos pés continua esperando que aprendamos a cuidar dele.
De vez em quando volto aos lugares onde meu avô costumava me levar. Algumas coisas desapareceram; outras resistem. Há uma árvore antiga perto do caminho e, quando o vento passa por seus galhos, produz um ruído baixo. Quem anda depressa talvez nem perceba. Eu paro. Escuto. E me lembro da voz do velho: “A terra conversa.” Hoje não discuto mais. Talvez converse mesmo. Talvez fale quando um rio diminui, quando uma floresta desaparece, quando o calor aumenta, quando uma enchente leva uma rua ou quando um pássaro deixa de aparecer. Talvez sejam os gemidos da criação de que falavam as Escrituras. Talvez sejam simplesmente as leis da natureza cumprindo aquilo que sempre cumpriram. Para mim, uma coisa não precisa eliminar a outra. A fé pode perguntar. A ciência pode explicar. E o homem pode aprender com ambas. Porque talvez o maior conhecimento não esteja em descobrir quantas estrelas existem no universo, mas em compreender o pequeno pedaço de chão que sustenta nossos pés, reconhecer que fazemos parte dele e aprender a respeitá-lo. Meu avô sabia disso muito antes de mim.
Hoje, quando olho para o céu comprido sobre a Serra, percebo que o universo continua imenso, ordenado e misterioso. A lua segue sua rota. O sol nasce. O vento sopra. A água procura seu caminho. A semente rompe a terra. Tudo parece conhecer sua tarefa, seu tempo e sua medida. Então me vem aquela velha pergunta: se o mundo inteiro sabe viver dentro de sua medida, por que somente o homem insiste em viver como se fosse dono de tudo? Talvez a resposta não esteja nas estrelas que desejamos alcançar, nos grandes discursos, nos palácios, nos púlpitos ou nas máquinas que construímos. Talvez esteja muito mais perto. Debaixo dos nossos pés. No rio que ainda corre. Na árvore que ainda permanece. Na terra que recebe nossos mortos e alimenta nossos filhos. Meu avô dizia que ela conversava. Hoje penso que talvez esteja falando há muito tempo. Nós é que fizemos barulho demais para escutá-la. E, se ainda houver tempo, talvez nossa maior sabedoria seja justamente esta: fazer silêncio, abaixar os olhos para o chão e finalmente aprender a ouvir os gemidos da Terra.
* Escritor. Membro da Academia Capixaba de Letras da Diversidade.
Foto: Prefeitura da Serra.




