Entre antigas fogueiras e novas formas de liberdade, a mulher que se recusa à submissão ainda desafia os julgamentos do mundo.
Conhecimento, mistério e liberdade: a bruxa contemporânea escreve a própria história.
Houve um tempo em que uma mulher que conhecia demais, sabia demais ou simplesmente não se comportava conforme as expectativas de sua época podia despertar suspeitas. A história das perseguições por bruxaria também revela os temores de sociedades que nem sempre souberam conviver com mulheres fora dos lugares que lhes haviam reservado.
Conhecimentos sobre ervas, práticas de cura, crenças, sexualidade e formas de autonomia foram, em diferentes contextos históricos, associados à ameaça, à heresia e à desobediência. Muitas mulheres foram acusadas, perseguidas e condenadas por motivos diversos. A fogueira tornou-se uma das imagens mais conhecidas dessa perseguição, mas não foi o único método de punição.
Em determinados lugares e períodos, mulheres acusadas de bruxaria também foram submetidas ao chamado teste da água. Tinham mãos e pés amarrados, por vezes em posições cruzadas, e eram lançadas em rios ou lagos. Uma corda presa ao corpo permitia que fossem retiradas da água, mas não lhes devolvia a liberdade de movimento.
Se flutuassem, isso podia ser interpretado como sinal de culpa; se afundassem, a suposta prova de inocência poderia custar-lhes a vida.
Uma prova sem justiça possível, na qual até o próprio corpo era transformado em instrumento de acusação.
Fogo ou água: mudavam os métodos, permanecia a disposição de julgar, punir e silenciar mulheres.
Os séculos passaram. As sociedades se reorganizaram, as leis mudaram e a mulher, tantas vezes descrita por vozes alheias, começou a reivindicar o direito de contar a própria história.
Aprendeu a ler o mundo e a escrever o próprio nome nele.
Passou a frequentar universidades, ocupar cargos públicos, dirigir instituições, disputar eleições, formular políticas e participar das decisões que durante muito tempo lhe foram negadas. Entrou em gabinetes, tribunais, parlamentos e salas de reunião onde sua presença já foi considerada uma exceção.
E assumiu também o volante.
Aprendeu a dirigir pelas ruas sem precisar de alguém no banco ao lado para autorizar seu caminho. Um gesto cotidiano, hoje aparentemente banal, mas que também representa uma conquista de autonomia. Afinal, conduzir um automóvel pode ser uma metáfora bastante precisa para algo maior: escolher a própria rota, decidir quando avançar, reconhecer o momento de mudar de direção e compreender que nenhum destino precisa ser determinado por terceiros.
Aos poucos, deixou de apenas ocupar os lugares que lhe permitiam e passou a reivindicar o direito de escolher aonde queria chegar.
Aprendeu a dizer sim sem que isso significasse submissão. E não sem que fosse necessário apresentar uma defesa.
Descobriu também que o corpo não era um território sobre o qual todos tinham o direito de opinar. Que o prazer não precisava ser uma concessão, que o desejo não diminuía sua dignidade e que a liberdade de experimentar não deveria estar condicionada à aprovação de uma plateia moralista.
Aliás, as bruxas contemporâneas podem muito bem apreciar sexo sem compromisso, um Cosmopolitan bem preparado e conversas que atravessem a madrugada. Não necessariamente nessa ordem.
A emancipação feminina também compreende o direito à leveza, ao prazer e à escolha. Nem toda noite precisa terminar em romance, nem todo encontro exige continuidade. Nenhuma mulher deveria precisar apresentar uma justificativa moral para os próprios desejos.
A velha moralidade ainda procura explicações. A bruxa, provavelmente, já pediu outra rodada.
Também há bruxas nos tribunais.
Não necessariamente aquelas que dominam fórmulas antigas ou conhecem códigos indecifráveis, mas mulheres que compreendem que a Justiça exige mais do que o desejo de vencer. Exige preparo, disciplina, responsabilidade e ética. Mulheres que sabem que a competência não precisa de atalhos, que a firmeza dispensa a deslealdade e que o exercício do Direito não deveria ser confundido com uma licença para ferir.
Algumas vestem a toga. Outras exercem a advocacia. Há aquelas que atravessam corredores institucionais com a discrição de quem não precisa transformar cada gesto em espetáculo. Exercem sua profissão com excelência, respeitam os limites éticos e compreendem que a Justiça não é um troféu a ser conquistado a qualquer preço.
Penso também em Cármen Lúcia, ministra do Supremo Tribunal Federal. Uma mulher que alcançou uma das mais altas posições do Judiciário brasileiro e cuja trajetória nos permite imaginar uma espécie de bruxa ancestral da palavra e da Justiça. Não porque o poder lhe tenha conferido magia, mas porque sua presença ajuda a demonstrar que a autoridade também pode ter voz feminina.
Uma mulher pode conhecer profundamente o Direito sem fazer dele um instrumento de intimidação. Pode exercer autoridade sem recorrer à arrogância e demonstrar competência sem precisar diminuir quem está ao seu lado.
Uma das maiores transgressões da mulher contemporânea está em compreender que não precisa negociar a própria inteligência para ser amada.
Ela não precisa fingir que sabe menos, silenciar uma opinião ou recolher as próprias conquistas para preservar a vaidade de quem caminha ao seu lado. Não precisa transformar competência em modéstia compulsória, nem confundir parceria com a obrigação de permanecer um passo atrás.
Uma mulher pode admirar, apoiar e celebrar as conquistas de outra pessoa sem se tornar coadjuvante da própria história.
O amor que exige o apagamento de uma das partes não é uma celebração de duas existências, mas uma disputa silenciosa por espaço.
A bruxa contemporânea já não aceita esse pacto.
Ela aprendeu que pode compartilhar o palco sem abandonar a própria voz, reconhecer o brilho alheio sem apagar o seu e construir vínculos nos quais ninguém precise perder a própria identidade para que o outro se sinta importante.
Non serviam.
Não me submeterei.
Há uma particularidade curiosa nessa evolução: a reputação de certas mulheres parece mudar justamente quando elas deixam de suportar aquilo que antes suportavam em silêncio.
O limite, quando finalmente pronunciado, passa a ser interpretado como afronta. A recusa, antes aguardada com impaciência, transforma-se em crueldade. A mulher que durante anos tentou preservar a paz pode descobrir que, no instante em que exige reciprocidade, alguém a descreve como responsável pela guerra.
É curioso como a velha alcunha resiste às transformações do tempo. Quando uma mulher passa a exigir respeito, torna-se difícil. Quando deixa de carregar responsabilidades que não lhe pertencem, é egoísta. Quando procura proteção diante da violência, há quem prefira questionar seu temperamento a reconhecer a legitimidade de sua busca.
É nesse ponto que a história encontra o presente.
A existência de instrumentos como a Lei Maria da Penha representa uma conquista fundamental: a possibilidade de reconhecer a violência, buscar proteção e afirmar que a integridade de uma mulher não é assunto que deva ser resolvido à custa de sua submissão.
Não se trata de vingança, tampouco de uma declaração de guerra. Trata-se de compreender que o direito à segurança não depende da aprovação de quem o ameaça.
A mulher que procura proteção não precisa provar que é boa, dócil ou suficientemente paciente para merecê-la. Sua dignidade não depende de uma votação popular, muito menos do julgamento de quem se sente contrariado por seus limites.
A história da violência contra as mulheres, entretanto, não terminou com o desaparecimento das fogueiras. A violência atravessou gerações, assumiu outras formas e, em suas manifestações mais extremas, continua a produzir vítimas. Hoje, damos nome e reconhecimento jurídico a uma dessas expressões: o feminicídio.
A palavra é contemporânea; a violência que ela identifica, não.
Entre as antigas acusações de bruxaria e as estatísticas atuais de mulheres assassinadas não existe uma equivalência histórica simples. Existe, porém, uma questão que atravessa os séculos: o direito de uma mulher à própria existência jamais deveria depender da vontade de outra pessoa.
Há quem ainda espere que a mulher seja uma espécie de alquimista sentimental: alguém capaz de identificar virtudes ainda inexistentes, transmutar negligência em potencial e, mediante doses generosas de paciência, desvelo e abnegação, fazer florescer aquilo que o outro jamais se dispôs a cultivar.
A bruxa contemporânea, entretanto, já não se dedica à fatigante tarefa de transformar sapos em príncipes. Compreendeu que não lhe compete operar milagres sobre a personalidade alheia, tampouco sacrificar a própria existência em nome da evolução de um homem adulto.
Há encantamentos que exigem reciprocidade. Existem criaturas que, mesmo depois de inúmeras luas, permanecem exatamente onde escolheram estar.
Convenhamos: há transformações que nem a mais antiga das magias seria capaz de realizar.
A mulher de hoje pode ser cientista, professora, advogada, magistrada, parlamentar, empresária, artista ou tantas outras coisas que sua vontade e suas possibilidades permitirem. Pode administrar uma instituição pela manhã, buscar os filhos à tarde, escrever durante a noite e ainda encontrar tempo para contemplar a lua.
Não é extraordinária porque dá conta de tudo. É humana, e não deveria precisar dar conta de tudo sozinha.
Sua insurgência não está em desejar ocupar o lugar de alguém, mas em recusar o lugar menor que lhe foi historicamente atribuído. Não pretende apagar outras existências para fazer brilhar a própria. Apenas compreendeu que não precisa diminuir a própria luz para preservar a luminosidade alheia.
Nosce te ipsum. Conhece-te a ti mesma.
A evolução das bruxas está na possibilidade de existir por inteiro. De conhecer o próprio corpo, exercer a própria inteligência, defender os próprios direitos, escolher os próprios afetos e conduzir a própria vida sem solicitar autorização.
A mulher contemporânea não precisa provar que possui poderes extraordinários. Conhece seus direitos, reconhece seus limites e sabe que a liberdade também exige responsabilidade.
As fogueiras pertencem à história, embora suas imagens permaneçam na memória. Hoje, a resistência também se manifesta nas palavras, nas instituições, nas decisões judiciais, nas urnas e nos limites que uma mulher finalmente se permite estabelecer.
Será que somos bruxas?
Se pensar, desejar, decidir, governar, dirigir, argumentar e recusar a submissão ainda parecem atos ameaçadores, a pergunta não deveria ser o que há de errado com essas mulheres.
A questão é por que sua autonomia ainda incomoda tanto.
A bruxa contemporânea não precisa lançar maldições, transformar sapos em príncipes ou provar sua inocência diante de quem prefere não reconhecer sua liberdade.
Ela conhece a própria magia.
E já não se oferece como matéria-prima para a transformação de ninguém.
Eleanor Blackwood*
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* pseudônimo de Aline Machado.
*Imagem criada com inteligência artificial para esta crônica.




