(“A palavra ‘Querida’ soa a um afago inofensivo. Até ele perceber que, nas mãos de uma mulher com boa memória, é apenas a primeira palavra do seu atestado de óbito social.”)

 

Gentil leitor, permita-me uma observação sobre o acessório mais indispensável no guarda-roupa de um homem com histórias para contar— e algumas verdades para esconder. Não é um relógio suíço, tampouco um par de sapatos italianos. Muito menos uma fragrância francesa de assinatura. É, sem dúvida alguma, a narrativa da “ex-louca”.

Todo homem que se preze, seja em um bar à beira-mar, em um refúgio nas montanhas, circulando pelos endereços mais disputados da cidade ou instalado em algum esconderijo digno de cartão-postal, exibe aquele olhar perfeitamente ensaiado de cão abandonado e carrega uma dessas histórias no bolso do paletó.

O “script” é um clássico atemporal: ele suspira, pede mais um drinque e confidencia como a mulher que veio antes era difícil, desequilibrada e, claro, inconformada.

Ele, coitado, apenas tentou amar. Não é curioso como certas histórias parecem tão convincentes justamente quando falta a outra versão?

E nós, do outro lado da mesa, balançamos a cabeça com aquela doçura que só a ingenuidade permite. O ego feminino, confesso, adora o papel de salvadora. Nós já estivemos sentadas nessa mesma cadeira, bebericando um vinho harmonizado, acreditando piamente que a outra falhou porque não o amou o suficiente. Nós pensamos: Ah, coitada. Mas comigo será diferente. Eu sou equilibrada. Eu serei a calmaria no meio do caos dele.

Há uma tendência quase aristocrática em acreditar que somos a exceção à regra. Afinal, conosco ele será diferente. Nós saberemos compreendê-lo, respeitar seus silêncios, decifrar suas contradições e, quem sabe, oferecer a paz que nenhuma outra mulher foi capaz de proporcionar.

Nesse palco invisível, a mulher que chega é ensinada a enxergar a que partiu como uma concorrente que perdeu o trono. Não há ódio na minha pena para a nova ocupante desse cargo; há apenas uma serena e profunda compaixão. Ela não é uma inimiga. É apenas a próxima na fila.

Porque, minha querida, o tempo é o senhor de todas as máscaras, e a dele inevitavelmente escorrega. O charme de bom moço logo dá lugar às meias-verdades, aos planos cancelados na última hora, aos acordos que parecem ter prazo de validade e às promessas que nunca encontram ocasião para serem cumpridas.

Quando você questiona, ele desconversa. Se insiste, você exagera. Se demonstra incômodo, está criando problemas. Se perde a paciência, acaba de oferecer a prova de que a ex, afinal, não era tão louca assim.

Ele pode esquecer o que prometeu, mas jamais esquece de apontar o seu tom de voz. Pode descumprir acordos, mas considera uma afronta quando você cobra coerência. E, se por acaso você apresenta os fatos em ordem cronológica, recebe de brinde uma acusação de ressentimento.

A epifania chega quando você finalmente diz “não”, estabelece limites e se recusa a continuar representando o papel que lhe foi destinado. Então, ao olhar no espelho, percebe, com o peso de uma bolsa Birkin cheia de pedras, que a “loucura” nunca foi um diagnóstico da mulher que veio antes. Era o nome conveniente que ele dava à reação dela quando já não conseguia controlar a narrativa.

Há homens que não sabem assumir responsabilidades, mas possuem uma habilidade extraordinária para administrar a reputação das mulheres que passaram por suas vidas. Quando você deixa de ser dócil e acessível, torna-se “difícil”. Quando exige reciprocidade, é “carente”. Quando questiona contradições, é “paranoica”. E quando se recusa a engolir a versão distorcida dos fatos que ele tenta lhe empurrar goela abaixo, adivinhe só? Você recebe o selo definitivo de louca.

É uma estratégia curiosa: a conduta desaparece da discussão, mas a sua reação ocupa o centro do palco. O comportamento dele deixa de ser examinado; a sua personalidade passa a ser julgada. Uma verdadeira obra de prestidigitação. Houdini teria orgulho.

Se impor limites e recusar o papel de enfeite mudo me custa a sanidade aos olhos da sociedade, que seja.

Eu visto a camisa de força como se fosse alta-costura. A verdadeira insanidade seria perder a própria identidade para caber em uma relação que exige que você seja pequena para que o ego dele pareça grande.

“O tempo é o senhor de todas as máscaras, e a dele inevitavelmente escorrega. O charme de bom moço logo dá lugar às meias-verdades, aos planos cancelados na última hora.”

(Fotografias: Acervo autoral)

Nós não precisamos de rivalidade. Não competimos com quem chegou agora, simplesmente porque não há o que disputar quando se conhece a exata planta do labirinto em que a outra pessoa acaba de entrar. Deixamos para a sucessora os nossos melhores votos de sorte — acredite, ela vai precisar de cada um deles.

Quanto a nós? O palco é pequeno demais para aceitarmos papéis de apoio na tragédia de outra pessoa.

Gentil leitor, talvez a pergunta mais interessante não seja quem é a louca da história. Talvez seja por que algumas pessoas precisam transformar em loucura qualquer reação que ameace a versão que construíram de si mesmas. E por que tantas mulheres ainda se sentem obrigadas a provar que são razoáveis, equilibradas e dignas de respeito, quando o respeito deveria ser o ponto de partida, não uma recompensa por bom comportamento?

Eu me amo mais.

 

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* pseudônimo de Aline Machado.

 

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