A eleição de 2026 coloca novamente em debate uma questão fundamental para a democracia brasileira: onde estão as mulheres nos espaços de decisão?
As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros. Segundo dados atualizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), elas representam 52,84% do eleitorado nacional, com 83,9 milhões de eleitoras aptas a votar nas eleições de 2026.
Apesar de serem maioria entre quem vota, as mulheres continuam sub-representadas entre quem ocupa os espaços de poder.
Nas eleições gerais de 2026, até a atualização dos dados citados em 16 de agosto, foram registrados 7.134 pedidos de candidatura de mulheres, correspondendo a 34,8% do total de 20.496 registros. Os homens somavam 13.362 candidaturas, ou 65,2%.
Houve um pequeno avanço em relação a 2022, quando as mulheres representaram 33,8% das candidaturas. Entretanto, o crescimento do número de candidatas ainda não significa uma participação proporcional das mulheres nos mandatos eletivos. Os números de candidaturas ainda podem sofrer alterações durante a análise da Justiça Eleitoral e em razão de eventuais substituições.
O próprio TSE reconhece que a participação feminina na política brasileira ainda enfrenta grandes desafios. Nas eleições de 2022, foram eleitas apenas 91 mulheres para a Câmara dos Deputados e quatro para o Senado Federal.
UMA DISTÂNCIA ENTRE O VOTO E O PODER
Existe, portanto, uma contradição que precisa ser enfrentada.
As mulheres são maioria entre as pessoas que escolhem seus representantes, mas continuam sendo minoria entre aqueles que tomam decisões nos parlamentos.
Essa desigualdade não pode ser explicada apenas pela quantidade de mulheres que se candidatam. É necessário observar também as condições reais de participação política: acesso a recursos, estrutura partidária, tempo de campanha, exposição pública, redes de apoio, divisão desigual do trabalho doméstico e de cuidado e, ainda, a violência política de gênero.
A violência contra mulheres que participam da vida pública pode assumir diferentes formas: ataques, ameaças, desqualificação, constrangimentos, violência digital e outras práticas destinadas a impedir ou dificultar sua atuação política.
O ESPÍRITO SANTO TAMBÉM ENFRENTA O DESAFIO DA REPRESENTATIVIDADE
No Espírito Santo, a realidade também demonstra essa desigualdade.
A Assembleia Legislativa possui 30 cadeiras. Na atual legislatura, quatro são ocupadas por deputadas: Iriny Lopes, Janete de Sá, Raquel Lessa e Camila Valadão, o que corresponde a aproximadamente 13,3% da Casa. Registros oficiais da Assembleia confirmam a presença das quatro parlamentares na composição da legislatura.
Na Câmara dos Deputados, o Espírito Santo possui 10 cadeiras, mas atualmente conta com apenas uma deputada federal, Jack Rocha. O registro oficial da Câmara confirma seu mandato na legislatura 2023–2027.
No Senado Federal, atualmente nenhuma das três cadeiras do Espírito Santo é ocupada por uma mulher. Os três senadores em exercício pelo estado são Fabiano Contarato, Magno Malta e Marcos do Val.
Nas eleições de 2026, duas cadeiras do Senado pelo Espírito Santo estarão em disputa, dentro do processo de renovação parcial da Casa.
MAIS MULHERES NOS ESPAÇOS DE PODER É UMA QUESTÃO DEMOCRÁTICA
A presença feminina na política não deve ser vista apenas como uma questão de números. Representatividade significa permitir que diferentes experiências sociais estejam presentes na formulação das leis, na elaboração das políticas públicas e na definição das prioridades do Estado.
Mulheres de diferentes regiões, classes sociais, raças, profissões e trajetórias precisam ter condições reais de disputar eleições e exercer seus mandatos.
O desafio brasileiro não é apenas aumentar o número de mulheres que entram na disputa eleitoral. É garantir que elas tenham igualdade de condições para competir, segurança para participar e liberdade para exercer seus mandatos.
A democracia se fortalece quando a composição dos espaços de poder se aproxima da diversidade da própria sociedade. Se mais da metade do eleitorado brasileiro é formado por mulheres, é legítimo perguntar por que elas ainda são tão poucas nos espaços onde as decisões são tomadas?
A eleição de 2026 representa mais uma oportunidade para discutir essa desigualdade e refletir sobre os mecanismos necessários para ampliar a participação feminina na política brasileira. Mulheres não querem apenas votar. Mulheres também querem participar, decidir, representar e ocupar os espaços de poder.
Por Luciana Santos Escritora e Membro Fundadora da Academia Capixaba de Letras da Diversidade
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