Por trás da força que a sociedade celebra, há mulheres exaustas que também precisam ser cuidadas
Ser mãe atípica é, muitas vezes, assumir uma rotina de cuidados que exige presença constante, acompanhamento médico, terapias, consultas, reuniões escolares, busca por direitos e uma vigilância permanente diante das necessidades do filho. Mas existe uma dimensão dessa realidade que ainda recebe pouca atenção: quem cuida da mulher que cuida?
O adoecimento das mães atípicas não decorre da maternidade ou da deficiência do filho. Ele está profundamente relacionado à sobrecarga, à falta de apoio, à desigualdade na divisão dos cuidados e à insuficiência das redes de proteção.
Muitas dessas mulheres passam a colocar a própria vida em segundo plano. Adiam consultas, abandonam projetos pessoais, interrompem estudos, reduzem ou deixam o trabalho, abrem mão de momentos de lazer, de descanso e, muitas vezes, até da convivência social. São renúncias que podem acontecer de forma gradual, até que cuidar de si pareça um luxo ou algo impossível.
A rotina pode ser marcada por jornadas ininterruptas de cuidado, noites mal dormidas, responsabilidades domésticas, acompanhamento de tratamentos e uma verdadeira luta para conseguir laudos, terapias, medicamentos, transporte, atendimento especializado e vagas em escolas adequadas.
Além da sobrecarga física, existe a sobrecarga emocional. Muitas mães enfrentam solidão, abandono conjugal, dificuldades financeiras e a sensação de que precisam ser fortes o tempo inteiro. A sociedade frequentemente as chama de “guerreiras”, mas esse elogio pode esconder uma realidade dolorosa: ninguém deveria precisar ser uma guerreira o tempo todo para conseguir garantir direitos básicos ao próprio filho.
A romantização da maternidade atípica também pode contribuir para invisibilizar o sofrimento. Por trás da mulher que aparentemente “dá conta de tudo”, pode existir alguém exausta, sem tempo para respirar, conversar, descansar ou simplesmente existir para além do papel de cuidadora.
Essa sobrecarga pode favorecer estresse crônico, ansiedade, depressão, esgotamento emocional, alterações do sono e outros problemas de saúde. O corpo também sente o peso de uma rotina sem pausas e sem uma rede de apoio suficiente.
E quando os pais envelhecem, surge ainda outra preocupação: “o que acontecerá com meu filho quando eu não puder mais cuidar dele?”
Para mães e pais idosos de filhos que necessitam de apoio permanente, o futuro pode ser acompanhado por medo e insegurança. Quem assumirá os cuidados quando eles estiverem doentes, debilitados ou não estiverem mais presentes? Haverá moradia, proteção, renda, atendimento de saúde e convivência comunitária?
Por isso, discutir a maternidade atípica também significa discutir políticas públicas, inclusão, assistência social, educação, saúde, trabalho, acessibilidade, proteção previdenciária e planejamento para o futuro.
É fundamental construir redes de apoio que não responsabilizem exclusivamente a mãe. Familiares, amigos, comunidades, associações, serviços públicos e instituições precisam compartilhar responsabilidades. Grupos de apoio entre mães atípicas também podem ser importantes espaços de escuta, acolhimento e troca de experiências.
Cuidar da mãe não significa diminuir o cuidado destinado ao filho. Ao contrário: significa reconhecer que ela também é uma pessoa com direitos, desejos, limites, sonhos e necessidades.
A mãe atípica precisa ter o direito de descansar sem culpa, trabalhar quando desejar, estudar, conviver com outras pessoas, cuidar da própria saúde, ter vida social e construir seus próprios projetos.
Precisamos deixar de perguntar apenas “o que essa mãe consegue fazer pelo filho?” e começar a perguntar:
Quem cuida dela?
Quem divide essa responsabilidade?
Quem garante seus direitos?
Quem oferece apoio quando ela está cansada?
E quem estará ao lado dela quando ela precisar ser cuidada?
Cuidar de quem cuida é uma responsabilidade coletiva. Mães atípicas não precisam de discursos que romantizem sua força. Precisam de apoio, políticas públicas, divisão de responsabilidades, acolhimento e condições concretas para viver — e não apenas sobreviver à rotina imposta pela vida.
Por Luciana Santos Escritora e Membro Fundadora da Academia Capixaba de Letras da Diversidade
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