Quase três anos sem reajuste, um aumento de R$50 no tíquete e um primeiro escalão com salário quase dobrado mostram como a prefeitura de fato trata quem sustenta o serviço público

 

Por Prof. Vinicius Machado *

Tem data comemorativa que mais parece provocação. Neste 28 de outubro, Dia do Servidor Público, a prefeitura de Vila Velha resolveu “presentear” seus trabalhadores com um reajuste de míseros R$ 50 no auxílio-alimentação. Cinquenta reais. Isso não paga uma compra pequena no supermercado, não chega perto do aumento da carne, do gás ou do aluguel. E foi anunciado justamente no dia em que a cidade deveria reconhecer quem a mantém de pé.

O anúncio seria só decepcionante se não viesse acompanhado de um dado mais grave: os servidores municipais estão há quase três anos sem reajuste salarial. O último foi anunciado pelo prefeito Arnaldinho Borgo em abril de 2024. Desde então, a inflação seguiu firme e o contracheque ficou parado. Na prática, professores, profissionais da saúde, agentes administrativos e guardas municipais estão ganhando menos a cada mês, mesmo trabalhando o mesmo tanto ou mais.

Tíquete não é salário, e a prefeitura sabe disso. Auxílio-alimentação não entra no salário-base, não conta para férias, para o 13º nem para a aposentadoria. Aposentados e pensionistas, que dedicaram a vida ao serviço público e também sentem a inflação no bolso, nem sequer recebem esse benefício. Oferecer R$50 no tíquete é uma forma conveniente de parecer generoso sem enfrentar o que realmente importa: a revisão geral anual, que é um direito garantido pela Constituição para repor as perdas causadas pela inflação.

O que torna a situação ainda mais difícil de engolir é a comparação com o andar de cima. Em dezembro de 2024, a Câmara aprovou um aumento de quase 90% para o prefeito, o vice e os secretários. O salário do prefeito saltou de R$ 15.362,73 para R$ 29 mil. O do vice subiu de R$ 13.356 para R$ 25.230, e o dos secretários de R$ 12.243 para R$ 22,9 mil. Os próprios vereadores já haviam garantido para si um aumento de 104%, de R$ 7.430 para R$ 15.193,35.

Façamos a conta que o cidadão faz na cozinha de casa. Para o primeiro escalão, a correção chegou a quase R$ 14 mil por mês. Para o servidor de carreira, R$ 50. Não há discurso de responsabilidade fiscal que explique essa diferença. Quando falta dinheiro, falta para todos. Quando sobra só para alguns, o nome disso é escolha política.

A prefeitura gosta de falar em valorização do funcionalismo. Cita abonos, cursos e equipamentos novos. Tudo isso tem seu valor, mas valorização não se faz com propaganda nem com benefício pontual. Faz-se com salário corrigido, com previsibilidade e com respeito a quem atende a população na ponta.

E é bom lembrar que esse problema não é só do servidor. Servidor desvalorizado significa serviço público fragilizado. Profissionais qualificados deixam a rede, a rotatividade aumenta e quem fica carrega a sobrecarga. No fim, quem paga a conta é o morador que espera na fila do posto de saúde, que deixa o filho na escola municipal e que precisa de um atendimento digno na prefeitura.

Neste Dia do Servidor, Vila Velha não precisa de homenagens nas redes sociais nem de anúncios de R$ 50. Precisa de uma resposta concreta para quem está há quase três anos esperando. Quem faz a cidade funcionar merece respeito, e respeito, no fim das contas, se mede no contracheque.