Servidor público relata dificuldades de acolhimento na rede de saúde em Vila Velha e denuncia a falta de sensibilidade no tratamento de pacientes com dor crônica.

Dias atrás, escrevi sobre a importância de uma política municipal de proteção aos direitos das pessoas com fibromialgia. Na oportunidade, falei sobre a precariedade do atendimento no PA da Glória e, em contraste, sobre a experiência de atendimento humanizado na UPA de Riviera da Barra.

Todavia, é preciso reconhecer: a rede privada de hospitais de Vila Velha, de modo geral, também não está preparada para acolher adequadamente as pessoas com fibromialgia.

Quando as dores se tornam insuportáveis, procuro frequentemente um hospital particular da cidade. Ali, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e recepcionistas costumam tratar-me com absoluta dignidade e zelo. Sinto-me profundamente bem-recebido e, não raro, saio de lá melhor — talvez mais pela consideração daqueles que cuidam de mim do que pela própria medicação administrada.

Recentemente, procurei atendimento médico. O profissional que me atendeu prescreveu os remédios e, sentindo-me um pouco melhor, voltei aos meus afazeres. Quando a noite caiu e a temperatura oscilou, porém, o meu corpo voltou a sofrer com as dores. Retornei, então, ao hospital.

O médico que havia me atendido anteriormente abraçou-me e disse que me atenderia. A minha ficha, contudo, foi selecionada por uma médica que eu jamais havia conhecido.

Ela me disse, literalmente, que não poderia fazer nada por mim e que eu não poderia receber mais nenhuma medicação. Pedi, então, para falar com o médico que já havia me atendido. Ela abriu a porta, conversou brevemente com o colega, que logo afirmou concordar que as mesmas medicações não deveriam ser novamente prescritas, desde que ela encontrasse alguma alternativa para aliviar as minhas dores.

Quando o seu colega virou as costas, ela prescreveu um anti-inflamatório, imprimiu a receita e me disse: “Nem isso eu devia estar fazendo”.

Com cordialidade, virei-me para ela e respondi: “Ora, se isso vai contra a sua conduta médica, então não faça. Deixe-me voltar para casa com dor; prefiro cancelar a minha senha.”

Ela concordou com o cancelamento da minha senha.

Antes de sair daquela sala, todavia, fiz questão de listar os nomes dos médicos daquele hospital — profissionais que, em outras ocasiões, jamais permitiriam que eu saísse dali sem um atendimento adequado, digno e resolutivo.

Os técnicos de enfermagem, tão extremosos comigo, ao me avistarem partir sem ser medicado, ficaram perplexos.

E é justamente aí que está o problema.

Conviver com a fibromialgia é travar uma batalha diária. Entre tantos sintomas, talvez nenhum seja tão devastador quanto o cansaço. Não apenas o cansaço físico, mas também o psíquico e o emocional.

Cansaço de ter sempre que explicar a própria dor. Cansaço de precisar justificar aquilo que o corpo sente. Cansaço de nunca saber o que se espera de nós para que sejamos considerados suficientemente doentes, suficientemente dignos de cuidado. Cansaço de precisar se desgastar para obter o mínimo.

Cansaço, sobretudo, de lutar para que direitos que já estão previstos em lei sejam efetivamente respeitados.

A pessoa com fibromialgia não está pedindo um favor. Não está pedindo um privilégio. Não está pedindo esmola.

Está pedindo cuidado.

Está pedindo dignidade.

Está pedindo que a dignidade da pessoa humana deixe de ser apenas um fundamento inscrito na Constituição da República e se concretize naquilo que deveria ser o mais elementar de todos os direitos: o direito à vida.

 

*Italo Samuel Wyatt é servidor público estadual, advogado, escritor, psicanalista, membro da Academia de Letras de Vila Velha (ALVV) e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES).

 

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Italo Wyatt | Por uma política municipal de proteção aos direitos das pessoas com fibromialgia


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