Seminário da Federação das Apaes do Espírito Santo reuniu mais de 200 profissionais para transformar o discurso sobre inclusão em estratégias concretas de aprendizagem.
No Brasil, 2,4 milhões de pessoas têm diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população, segundo o Censo 2022. Diante desse cenário, uma pergunta se torna cada vez mais urgente: as escolas sabem como alfabetizar uma criança autista, ensinar matemática, prevenir uma crise ou ajudá-la a comunicar o que sente?
Essas foram algumas questões presentes no seminário “Práticas Pedagógicas no AEE: Avaliação, Intervenções e Estratégias Educacionais para o TEA”, promovido pela Federação das Apaes do Espírito Santo (Feapaes-ES) e que reuniu mais de 200 professores, pedagogos e gestores das Apaes capixabas, em Vitória.

O encontro partiu de uma provocação direta: garantir a matrícula não significa, por si só, garantir inclusão. Para que o estudante participe, aprenda e desenvolva autonomia, a escola precisa de conhecimento especializado, avaliação individualizada e intervenções respaldadas por evidências.
“Não existe inclusão escolar verdadeira sem que o professor tenha conhecimento especializado para compreender as necessidades do estudante e adotar estratégias adequadas de ensino”, afirmou o pesquisador Lucelmo Lacerda de Brito, referência nacional em Educação Especial para pessoas com autismo.
Lucelmo defendeu que o debate precisa ultrapassar discursos genéricos e chegar às situações enfrentadas diariamente nas salas de aula: como alfabetizar a criança autista, como ensinar matemática, como lidar com uma crise e como apoiar problemas emocionais.
Entre as estratégias apresentadas pelo pesquisador no Atendimento Educacional Especializado (AEE) estão:
- Uso de recursos visuais para antecipar atividades.
- Oferta de escolhas e reforço positivo.
- Utilização dos interesses do estudante como ferramenta pedagógica.
- Avaliação da função dos comportamentos desafiadores.
Comportamento também é comunicação
A psicóloga Camila Nasser Mancini, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Ufes, destacou que “todo comportamento comunica alguma coisa”. Muitas vezes, atitudes classificadas como agressividade ou desobediência revelam apenas a falta de repertório de comunicação verbal ou gestual da criança.
O psiquiatra Gabriel Silva Pereira Bessa Couto reforçou estratégias de manejo comportamental e autorregulação emocional, como antecipação de mudanças, rotinas previsíveis, instruções objetivas, redução de estímulos e reforço de pequenos avanços. Ele lembrou que, durante uma crise, o caminho é garantir segurança e retomar o diálogo apenas quando houver equilíbrio emocional.
Autonomia precisa ser ensinada
O doutor em Educação Especial e coordenador da Fenapaes, Luiz Fernando Zuin, destacou que habilidades sociais como comunicar necessidades, fazer escolhas, lidar com conflitos, pedir ajuda e expressar sentimentos devem integrar o planejamento pedagógico.
“Todo mundo sonha. E nós precisamos sonhar com esse estudante, capaz de assumir papéis cada vez mais importantes na própria vida”, afirmou Zuin.
Compromisso com a inclusão
Para o diretor social da Feapaes-ES, Vanderson Gaburo, o seminário reforça o compromisso da rede com a formação de seus profissionais:
“Acreditamos que a educação transforma vidas e amplia oportunidades. Qualificamos cada vez mais nossos profissionais e aperfeiçoamos nossas estratégias de atuação para melhorar o atendimento aos assistidos.”




